Aprendendo a distância

Publicado por Renato Sabbatini em

Gerson quer aprender contabilidade para melhorar de vida. Só tem o ginásio incompleto, e estará numa cadeia em São Paulo pelos próximos dois anos, condenado por estelionato. Paulo é um médico que trabalha em Recife, e que ambiciona voltar para Catolé do Rocha, cidadezinha do alto sertão paraibano, onde nasceu, para fazer clínica rural. Mas teria que interromper o mestrado que está fazendo na universidade da capital.O sonho dourado de Viviane, uma garota pobre do interior do Acre, é fazer um curso de ecologia na UNICAMP. Evidentemente não tem dinheiro para isso. Albino, ao contrário, tem bastante dinheiro: é um super-executivo de um banco carioca, mas trabalha 12 horas por dia e não encontra tempo para fazer o MBA de que tanto precisa para progredir na carreira.

Todos esses são exemplos reais de gente que pode ser ajudada pela educação a distância, ou EAD, a sigla “quente” de um conceito antigo, mas que está explodindo em crescimento no mundo todo, empurrada pelos ventos das novas tecnologias. A EAD representa uma oportunidade preciosa para todos os Gersons, Paulos, Vivianes e Albinos da vida, que desejam progredir através do estudo, mas que encontram barreiras intransponíveis no ensino convencional, seja pela impossibilidade de se deslocar, seja pela distância geográfica, pelas limitações de tempo ou dinheiro. O desenvolvimento recorde da Internet em nosso país colocou uma massa grande de usuários no mercado de EAD, que cada vez mais se baseia em tecnologias de rede, como e-mail, Web, etc., para a implementação de cursos à distância com alta interatividade e riqueza de informações. Para isso, as universidades públicas e privadas tem se equipado aceleradamente, treinando professores, comprando computadores e redes, e se conectando à Internet.

A EAD é uma prática antiga: desde o surgimento da escrita, da imprensa e do correio, ela tem assumido muitas formas. Na Inglaterra, por exemplo, existe a Open University desde a década dos 50. É uma universidade totalmente a distância, que tem cerca de 300 mil alunos em todo o mundo, e que ainda utiliza em muitos dos seus cursos o prosaico papel impresso e o correio como formas de contato com seus alunos. No entanto, as tecnologias de comunicação eletrônica, como telefone, rádio, televisão, fax, computadores, a Internet e a videoconferência, têm dado um impulso poderoso e uma maior disseminação para os cursos a distância (inclusive na Open University). Uma parte das atividades é presencial, como é o caso de algumas provas e exames, que precisam ser feitos em pessoa (por motivos óbvios). Por isso, a OU montou uma rede de filiais e representantes em 9 países, e tem feito muitos convênios com universidades de outros países (as Universidades Federais do Ceará e do Pará tiveram cursos de graduação a distância em matemática, aprovados pelo MEC, que utilizam o material e a tecnologia de excelente qualidade desenvolvidos pela OU).

No âmbito da educação universitária formal, ela já ocorre há mais de 50 anos em diversos países como Inglaterra, Espanha, Israel e Japão, e mais recentemente, na América Latina particularmente México e Colômbia, e nestes últimos anos, Brasil. Aliás, o primeiro curso a distância foi na Suécia, em 1833 (era um curso de contabilidade).

O fato de que a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDBE), de 1996, deu amplo reconhecimento governamental à EAD como uma forma legítima, em pé de igualdade com a educação presencial, foi também muito importante. As universidades, principalmente do setor privado da educação, não demoraram em reconhecer o valor grande do mercado que seria gerado pela LDBE, e começaram a se organizar. Em 1999, surgiram no Brasil dois grandes consórcios universitários de EAD, a Universidade Virtual Pública Brasileira (UniRede), formada por hoje por 67 universidades públicas municipais, estaduais e federais, e a Universidade Virtual Brasileira (UVB), formada por 15 universidades particulares. Muitas universidades e faculdades não demoraram em seguir essa tendência, e hoje existem mais de muitas centenas de instituições credenciadas pelo MEC a oferecer cursos na modalidade a distância. Aliás, o MEC criou, na época, uma ativa Secretaria de Educação a Distância (SEED), que implantou extensos e premiados programas, como a TV Escola e o DVD Escola, o eProInfo, o ProInfo (programa de informatização de escolas públicas no nível básico e médio), e vários outros. A maior iniciativa  em EAD do Brasil. no entanto foi a criação, pelo MEC, da primeira Universidade Aberta do Brasil (UAB), totalmente a distância, e que em 2019 já tinha 555 pontos de presença e mais de 100.000 vagas abertas. O Brasil já tinha feito cerca de 15 tentativas para ter uma Universidade Aberta. O saudoso Prof. Darci Ribeiro, que foi ministro da Educação e criador da Universidade de Brasília (UNB), chegou inclusive a fazer acordos com a OU na década dos 60s e a Editora da UNB traduziu muito material didático, mas a coisa não foi adiante.

Existem já há bastante tempo uma Associação Brasileira de Tecnologia Educacional (que tem uma parte forte em EAD) e a Associação Brasileira de Educação à Distância (ABED), que realiza congressos anuais de grande sucesso.

O problema é que infelizmente o “ensino por correspondência” ficou com um mau nome no Brasil, devido às inúmeras arapucas que surgiram no passado, como cursinhos de curta duração, com material totalmente deficiente, oferecidos em massa a um baixo custo, e que não oferecem nada a não ser um diploma, muitas vezes falso. Há alguns anos atrás, por exemplo, o Conselho Estadual de Educação de São Paulo cassou a autorização de funcionamento de muitas escolas secundárias que ofereciam cursos supletivos a distância, alegando baixa qualidade e desrespeito às normas fixadas para essa modalidade de ensino. E até o presidiário Gerson, que citei no começo do artigo, vai ficar sem poder fazer um curso formal de contabilidade, por enquanto, pois o Conselho Regional de Contabilistas posicionou-se contra o ensino a distância nessa área. São posições ainda de resistência, mas que tendem a se amenizar a medida em que a EAD aumentar sua qualidade e universalidade.

As novas tecnologias, como a Internet, dão um charme novo à EAD, mas os riscos de fraude são os mesmos. Recentemente circulou uma mensagem de correio eletrônico anunciando uma universidade americana a distância, que oferece dezenas de cursos de graduação, mestrado e doutorado, com diploma e tudo, pela módica quantia de 150 reais por mês. Muitas pessoas crédulas e ansiosas por estudar cairão nessa esparrela, que, evidentemente, não faz sentido, pois o MEC não reconhece esses cursos e os diplomas não valem absolutamente nada. Sem falar na apregoada qualidade de ensino, que deve ser bastante baixa, a julgar pelos custos. EAD séria custa caro e é muito trabalhosa, tanto para os professores quanto para os alunos. Por isso a atividade de acreditação e controle dos novos cursos de EAD é essencial.

A profunda transformação que a nova “sociedade da informação” está trazendo para o ambiente educacional, será baseada, portanto, no uso crescente das tecnologias de telecomunicação e informática aplicadas à educação à distância. Realmente, quando se pensa no que implica a quebra total das barreiras da distância e do tempo para o processo educacional, as possibilidades são impressionantes.

Uma das consequências mais revolucionárias disso tudo é que as escolas e as universidades tradicionais perderão o monopólio do ensino. Cada vez mais, os cursos mais interessantes, por serem os mais atuais e afinados com as necessidades imediatas exigidas pelo mercado de trabalho, serão ministrados por entidades fora da universidade. O critério de quem terá sucesso em conseguir “clientes” para seus cursos de educação continuada não será mais o da autoridade educacional, ou de quem os certifica, como hoje. As associações profissionais, em virtude de congregar especialistas respeitados de muitas instituições de ensino e pesquisa, e as empresas, que detêm excelência em alguma área, serão as universidades do futuro na educação profissional.

As universidades corporativas são outro bom exemplo. As grandes empresas estão descobrindo que custa muito menos, é muito mais eficiente, e muito mais alinhado com as suas atividades de negócio transformar o treinamento corporativo em uma escola mais formal, que está sendo chamado de “universidade corporativa”. Nos EUA, 85% das 500 maiores empresas já fundaram universidades corporativas, e gastam quase 5 bilhões de dólares anualmente. No Brasil, empresas como o Banco do Brasil, a LATAM, a Vale do Rio Doce, a Petrobrás, e a Amil, entre outras,  investem pesado em suas universidades. O mesmo acontece com grandes cadeias de franquias, como a MacDonald’s. Elas oferecem para seus funcionários uma ampla gama de oportunidades de aprendizado, desde cursos básicos, como liderança e aperfeiçoamento das secretárias, até programas completos de mestrado (MBA). A maioria dos cursos é dada atualmente por convênios com universidades e empresas especializadas, mas cada vez mais os próprios executivos e técnicos da empresa se envolvem como professores, com vantagens óbvias. E a educação à distância surge aqui com uma fortíssima ferramenta, ao diminuir os custos e exigir menos horas durante o expediente para dedicação do funcionário, com evidente impacto sobre a produtividade. Dependendo do curso, ele pode ser ministrado 100% à distância, mas é cada vez mais comum uma mescla de ensino presencial e ensino a distância, usada para maximizar os benefícios e diminuir os custos. Na EAD, está provado que pode-se aprender mais, em menor tempo, e mais eficientemente.

Dois conceitos ouvidos recentemente em congressos de educação profissional me impressionaram profundamente. O primeiro deles é que até 2020, as empresas que quiserem continuar competitivas terão que reservar um dia inteiro por semana para o treinamento ou recapacitação de seus empregados. E que até 2030 terão que conceder dois dias inteiros para essa atividade. O outro conceito é que a função principal do gerente será a de um professor, pois, aliando-se a alta mobilidade horizontal e vertical dos funcionários, à necessidade de aperfeiçoamento e aprendizados contínuos, recairá sobre o gerente de nível intermediário a tarefa de educar e re-educar os funcionários do seu setor, principalmente em empresas de base tecnológica. Continuar a estudar por toda a vida será a marca essencial do profissional do século XXI. E a EAD será sua principal ferramenta. São conceitos provocadores, mas verdadeiros, que nos fazem refletir.

Para onde vai a EAD? Muitas instituições de ensino estão vendo isso como um futuro grandemente promissor, inclusive quanto à geração de recursos financeiros. Embora alguns cursos de EAD eventualmente possam ser oferecidos gratuitamente, principalmente no setor social, a experiência mostra que os custos de implantação são altos, e que alguém precisa pagar por eles. Geralmente é o aluno. As escolas de extensão, atualmente onipresentes nas universidades, é a “parte paga” de muitas universidades públicas, e tem como alvo principal para seus cursos as empresas e outras instituições de ensino privadas. Elas são, cada vez mais, importante fontes de recursos, atualmente, e deverão se transformar em canais naturais para os cursos de EAD. Nos EUA, muitas universidades que ficam em regiões afastadas e pouco populadas, como em Nevada e Arizona, estão se transformando radicalmente o seu perfil, enfatizando a educação a distância, por motivos óbvios.

Nos países capitalistas em que deu certo, a EAD é encarada como uma unidade relativamente autônoma dentro da Universidade, com geração de recursos próprios, auto-sustentada, e voltada ao mercado externo (embora possa e deva ser usada para o alunado interno). É um empreendimento caro, com uso de muita tecnologia, demanda por pessoal especializado difícil de achar, e que encontra resistências na estrutura tradicional do ensino, que é voltado muito à classe e às atividades presenciais.

Referência

Corrêa Neto, JS e Valadão, JAD – Evolução da Educação Superior a Distância no Brasil


Renato Sabbatini

Fundador, Consultor-Chefe. Neurocientista, professor da Unicamp e da USP. Pioneiro em informática em saúde e no desenvolvimento e uso de tecnologias digitais na educação desde 1979, especialmente na educação médica a distância, trabalhou com várias universidades e faculdades e ajudou a implementar projetos de grande porte. Sua paixão é usar o conhecimento avançado para transformar o futuro da educação através da tecnologia.